Quem conta um conto, aumenta um ponto. Esta era uma frase que eu escutava frequente nas aulas de Português da minha infância.
Mas hoje, me causa um certo pavor. Sim, pavor! As mãos tremem, a cabeça vazia, não consigo unir e desentrelaçar as ideias que vem e vão, sem fazer sentido. Onde qualquer movimento imperceptível me faz fugir do papel e da caneta.
A luminosidade dourada por de trás da janela chama minha atenção. Gentes nas sacadas e música. Vozes, risadas e os gritinhos agudos dos pequenos. Skates, bolas, bicicletas. Vida, muita vida. E, de repente, estou flutuando em meus pensamentos, fugindo da tarefa árdua de escrever. E com este embalo, lembro de uma matéria no Fantástico sobre o Amor no século XXI.
Ninguém se apaixona como antes, de forma arrebatada e bloqueadora, hoje as paixões são instantâneas, que nem “Miojo”. Já ninguém quer morrer de amor, até porque depois não se morre realmente e ressuscitar do estado temporário de sonambulismo dá muito mais trabalho, é mais fácil navegar na Internet ou passear no shopping. Ninguém escreve cartas dramáticas e escandalosamente cheias de arroubos, nem fica em casa fechada, aturdida, a ouvir músicas de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Já ninguém perde a fome quando o coração acelera, nem falta à escola ou ao emprego alegando uma inusitada dor de barriga, que é afinal do peito.
Hoje pra apaixonar-se e desapaixonar-se não precisa muito, basta ter uma câmera digital e uma banda larga. As pessoas não ficam mais com as faces rubras, coração acelerado ou até mesmo sem palavras. A tecnologia não trouxe só acesso a mais informação, trouxe sentimentos a flor da pele, palavras desenfreadas nos blogs, chats, e-mails.
Antes, quando alguém julgava apaixonar-se a sério, lutava incansável e pacientemente pelo objeto da paixão. Mesmo que implicasse vergonhas, fazer cenas e figuras tristes. Hoje, quando alguém tem a vaga impressão de estar apaixonado, fica à espera que passe, ou melhor, expõe seus sentimentos em depoimentos e scraps.
Antes, quando alguém estava apaixonado e não era correspondido, cortava relações. Era tudo ou nada, ao contrário de agora, que todo mundo entende que não é um, mas uma rede de relacionamentos. As histórias todas têm um fim. Mas, na vida, o fim de cada história significa o início de uma nova, e com a tecnologia isto é fugaz, basta um novo clic.
E volto a lembrar da frase de minha saudosa professora: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”, e penso o quanto faz sentido no ato de escrever e de amar. Artes tão antigas e tão difíceis de aperfeiçoar. Ou melhor, artes que somente vivenciando, praticando, pode-se sair da mediocridade.
Somente o ato de escrever e de amar, ou de amar e escrever, fazem sentido na linguagem, onde canetas, papel e emoção se fundem, e se desentrelaçam em um amontoado de palavras, as vezes com sentido, outras nem tanto.
Profe Adri Ruas